HALLOWEEN OU DIA DO SACI? (Entre aculturação e pertencimento)



Escrevo este texto no fim de outubro de 2026, um mês que trouxe muitos assuntos importantes e que sempre traz questionamentos e interpretações das mais variadas formas, mas desta vez falaremos sobre essa data por nós tão conhecida através dos filmes, séries e demais conteúdos físicos ou digitais: me refiro ao Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas (em relação a elas teremos que dedicar uma análise particular). Agora que nos situamos, vamos tentar olhar mais a fundo esse fenômeno, desde os primórdios até hoje em dia. A construção de nossa identidade enquanto nação sofre influência externa, tanto política quanto filosófica: primeiro os colonizadores, depois os imigrantes e, em seguida, os que são fruto dessa miscigenação biológica e, acima de tudo, cultural. Outra característica é a inclusão de termos estrangeiros ao nosso vocabulário.

Claro que todo idioma passa por transformações, mas nós gostamos sim de “estilizar” nossas conversas informais e profissionais com termos e definições como: hot-dog, marketing, business, entre muitos outros. Houve uma época em que, pelo menos, um pequeno televisor valvulado com imagem em preto e branco podia ser visto em algumas residências em áreas mais urbanizadas no início dos anos oitenta. Além do fenômeno das telenovelas, que já eram carregadas de referências estrangeiras, outro tipo de programa fazia sucesso com outro segmento das famílias: me refiro, é claro, aos programas infantis e seus desenhos animados.

Hoje o Brasil não é apenas consumidor, mas também produtor de material desse segmento. Acredito que as HQs ainda sejam nosso maior expoente, mas experiências digitais e produções em live-action (olha o inglês aí) começam a despontar com alguma relevância. Claro que, apesar de abordarem situações de nosso cotidiano que algumas vezes se tornam universais, a fórmula e o formato seguem a cartilha que nos foi apresentada.

AS ORIGENS (Pensou que era só uma?)

A palavra Halloween vem diretamente do inglês antigo e é uma forma encurtada de "All Hallows' Eve", que significa "Véspera de Todos os Santos". A origem do termo está na união de três palavras simples: All (que significa "todos"), Hallow (um termo antigo para "santo" ou "sagrado") e Eve (uma abreviação de evening, que é "véspera" ou "noite anterior"). Quando a Igreja Católica definiu a celebração do Dia de Todos os Santos para o dia 1 de novembro, a noite do dia 31 de outubro ficou conhecida como a véspera dessa data sagrada. Com o passar do tempo e o uso popular da língua, a expressão All Hallows' Even foi se transformando e se contraindo até virar o nome que todos conhecemos hoje: Halloween. Mas essa história não começou com o catolicismo, podemos enumerar algumas datas e eventos que influenciaram nessa construção histórica que conhecemos hoje:

1. Festival de Samhain — Irlanda, Reino Unido e norte da França (Século IX a.C.).

2. Festival de Feralia e Pomona — Império Romano (Século I d.C.).

3. Dia de Todos os Santos e Dia dos Fiéis Defuntos (Allhallowtide) — Europa Ocidental (Século VIII d.C. e Século X d.C.).

4. Noite de Guy Fawkes (Bonfire Night) — Inglaterra (Século XVII d.C.).


Mas como tudo isso se relaciona? Pois bem: em uma sociedade, independente de seu período histórico, as simbologias e significados são reinterpretados e adaptados à sua realidade, seja por influência (positiva ou negativa) de fatores e potências externas, ou por um fenômeno antropológico chamado “Aculturação”.A aculturação é o processo de mudança cultural que ocorre quando dois ou mais grupos culturais distintos entram em contato direto e contínuo. Esse fenômeno resulta na adaptação, empréstimo, transformação ou absorção de elementos (como costumes, crenças, linguagem e tecnologia) de uma cultura pela outra. Raiz Ancestral: O Samhain celta estabeleceu a temática espiritual de transição entre mundos e a lareira com fogueiras. Sincretismo Romano: A fusão com as festividades de Feralia e Pomona incorporou o uso de frutos (como a maçã) e oferendas à noite mística. Institucionalização Cristã: O Allhallowtide (Dias de Todos os Santos e Finados) cristianizou e fixou o calendário dessas tradições no início de novembro. Evolução Cultural: A posterior Noite de Guy Fawkes na Inglaterra perpetuou o hábito popular das fogueiras, procissão e disfarces, moldando a transição para as celebrações modernas de rua.

FESTIVAL DE SAMHAIN

O Halloween e o solstício têm uma ligação muito forte por causa da Roda do Ano que os celtas seguiam, marcando as mudanças de estação. O Halloween em si vem do antigo festival celta chamado Samhain, que acontecia no final de outubro e marcava a chegada da metade escura do ano. Embora a data não caia exatamente no dia do Solstício de Inverno, que acontece em dezembro, o Samhain fica posicionado exatamente no meio do caminho entre o Equinócio de Outono e esse solstício. Para os povos antigos, o solstício de inverno era o auge do frio e a noite mais longa do ano, mas o Halloween funcionava como o grande portal de entrada para essa época sombria. Era o momento em que a natureza parecia adormecer ou "morrer" temporariamente, e por isso eles acreditavam que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos ficava mais fino. A conexão está justamente aí: o Dia das Bruxas nasceu como uma preparação mística e comunitária para a chegada iminente do solstício.

NAS TELAS E DENTRO DE CASA

E nós mesmos somos exemplo de uma geração que assistiu “Fúria de Titãs” original ainda com Stop Motion, entre outros. Aí chegamos nas adaptações que até hoje repetem a fórmula do “Caminho do Herói”, que muitas vezes falham, infelizmente.No fim das contas, o Brasil conheceu o Halloween não como um ritual celta de transição de estação ou uma festa de Finados, mas como um produto de entretenimento norte-americano, onde a estética e a diversão importam mais do que a origem histórica.


O DIA DO SACI-PERERÊ

O Dia do Saci nasceu oficialmente em 2003 no Brasil como uma resposta bem-humorada e cultural ao "Dia das Bruxas" norte-americano. A ideia surgiu da Sociedade dos Observadores de Saci (SOSACI), fundada pelo escritor Mouzar Benedito e outros entusiastas da nossa cultura, com a intenção de valorizar o folclore brasileiro no dia 31 de outubro. Em vez de importar bruxas e abóboras dos filmes de Hollywood, a proposta foi convidar todo mundo a celebrar um ícone legitimamente nosso: uma mistura das culturas indígena (a lenda original), africana (as histórias trazidas pelos escravizados) e europeia (o gorrinho mágico). No fim das contas, a data virou um lembrete divertido de que o nosso folclore tem história. Sendo assim, fica a critério de cada um: quem curtir um som, vá assistir uma banda de rock (sempre tem, seguindo o clichê, além de ser ótimo) fazendo a trilha sonora deste sábado, pelo menos é assim aqui em 2026. Ou então assista a um filme, durma, mas fique bem!


OPINIÃO FORMADA (24 Horas)





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